CARTA AOS MENINOS QUE CORREM ATRÁS DO ÔNIBUS DA SELEÇÃO BRASILEIRA

Autor: Geneton Moraes Neto

http://colunas.g1.com.br/geneton/

O autor da melhor definição já escrita sobre futebol é um ilustríssimo desconhecido. Seja lá quem for, merece ser entronizado quem resumiu em apenas doze palavras esta paixão tão avassaladoramente brasileira:

- Das coisas menos importantes da vida, o futebol é a mais importante…

Noventa e cinco por cento dos brasileiros devem ser adeptos desse mandamento.Os cinco por cento restantes não nasceram ainda.

Quero fazer uma confissão: eu estava banhado de suor no exato momento em que descobri que “das coisas menos importantes da vida, o futebol é a mais importante”. Não, eu não estava disputando uma final de campeonato. Como um celerado, eu corria desembestadamente atrás do ônibus da seleção brasileira, na avenida Rosa e Silva, no Recife, no já remotíssimo ano de 1969. Em minhas mãos, carregava uma folha de papel em branco. Não estava à procura de nenhuma declaração, não esperava por nenhuma entrevista. Nem sonhava em ser repórter. O que eu queria – como, provavelmente, todo menino brasileiro apaixonado por futebol – era um autógrafo de um dos meus ídolos.

Fui a pé de minha casa até o estádio do Náutico, na avenida Rosa e Silva. Uma multidão de torcedores esperava pela chegada da seleção, para o treino. Lá vem o ônibus. Tumulto. Gritaria. Empurrões. Eu me lembro de ter visto Tostão e Clodoaldo acenando na janela. Ou terá sido Gérson? Quem sabe, Jairzinho.Não importa: os craques dos meus times de botão estavam ali, materializados, a dois palmos de distância.

O treino ia ser fechado. Mas eram tantos os torcedores correndo atrás do ônibus que a Federação resolveu abrir os portões do estádio. Aquele punhado de fanáticos teve, então, o privilégio de assistir a um treino da seleção que, meses depois, entraria para a história do futebol mundial nos gramados do México como o melhor time de futebol de todos os tempos.

O que diabos eu estava fazendo na arquibancada do estádio dos Aflitos, na manhã de um dia de semana?

Aos doze anos de idade, eu estava descobrindo que o futebol é a mais importante das coisas menos importantes da vida. Dizem que a gente só guarda na memória rostos, datas e nomes que, por um ou outro motivo, nos são realmente importantes.O trator dos neurônios soterra o resto. Pois bem: meu professor de desenho no Colégio São Luís – que Deus o perdoe – passou o ano tentando me fazer entender que “o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos”. Eu passei o ano preocupado com outro problema: o Sport Clube do Recife, afinal de contas, ia ou não barrar a caminhada do Náutico rumo ao título de heptacampeão pernambucano? O meu time de botão ia ou não ganhar o dificílimo campeonato que a gente organizava na rua Dom Manoel da Costa, no bairro da Torre?

Enquanto o professor – com cara de zagueiro alemão – tentava me familiarizar com o fantástico mundo da geometria, eu ficava pensando com meus botões: quem é hipotenusa? O que significa cateto? Onde fica a saída, pelo amor de Deus? Cadê o meu timaço de botão?

Hoje, séculos depois, declaro-me formalmente incapaz de explicar o que significa a soma dos quadrados dos catetos. Mas sei de cor a escalação do time do Sport: Miltão; Baixa, Bibiu, Gílson e Altair; Válter e Vadinho; Dema, Zezinho, Acelino e Fernando Lima. Não preciso consultar nenhum jornal antigo para recitar de trás pra frente a escalação do meu time de botão – o Palmeiras de 1968: Perez; Scalera, Baldochi, Minuca e Ferrari; Dudu e Ademir da Guia, Gildo, Sevílio, Tupãzinho e Rinaldo. Eis uma prova matemática dessa verdade fundamental: das coisas menos importantes da vida, o futebol é a mais importante.Se não fosse, eu não teria guardado tantos nomes.

O meu exercício de memória, obviamente, não vale nada. Mas o que é a vida, se não uma coleção de gloriosas inutilidades ? Sou igualmente capaz de recitar o meu time de botão do Botafogo de 1969: Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César. É pouco? Lá vai o time do Santos: Cláudio, Carlos Alberto, Ramos Delgado, Joel e Rildo; Clodoaldo e Negreiros; Manoel Maria, Toninho, Pelé e Edu. Minha memória sepultou no cemitério dos esquecimentos todo o palavrório que meu professor mobilizou na inglória missão de me apresentar aos mistérios dos catetos e hipotenusas. Não tive coragem de dizer a ele, mas, desde o primeiro dia de aula, eu tinha certeza absoluta de que o futebol era mais importante do que a soma dos quadrados dos catetos. Não me perguntem por quê. Eu era um menino brasileiro. Não se deve pedir explicação a nenhum menino brasileiro apaixonado por futebol.

Esquecido das hipotenusas, guardei na memória duas cenas do dia em que corri desembestado atrás do ônibus da seleção brasileira. Clodoaldo saiu de campo chorando, machucado. Termina o treino. Nós, os desocupados meninos do Brasil que saímos de casa numa manhã de dia de semana para correr atrás do ônibus da seleção, tentávamos agora vislumbrar por uma fresta numa das paredes do estádio nossos craques se preparando para ir embora. Parecia filme de Fellini. Nós nos revezávamos no posto de observação. Cada um podia olhar por cinco, dez segundos o que estava acontecendo no vestiário dos nossos deuses. Quando chegou minha vez, o que vi? Clara, nítida, diante de mim, a imagem do Rei Pelé ensaboado da cabeça aos pés.O Rei estava nu.

Quando os jogadores voltaram para o ônibus, pararam para saciar nossa fome de autógrafos. Devo ter guardado em algum lugar esta relíquia. Onde estará este meu pequeno tesouro, pessoal e intransferível ?  Lá estão os autógrafos de Tostão, Rivelino, Brito, entre outros que terminaram ficando no caminho, na odisséia rumo ao México – como Paulo Borges, ponta-direita do Corinthians. A seleção que foi treinar no campo dos Aflitos trazia as estrelas que reluziriam na campanha do México: Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho,Tostão e Pelé. Quando o ônibus partiu, repetiu-se a gritaria, o tumulto, a vibração, os acenos. Nova correria atrás do ônibus.

O que terá acontecido naquele ano na vida do menino brasileiro apaixonado por futebol ? O meu professor de desenho me reprovou, é claro. Meu pai me deu uma bronca de dimensões bíblicas: disse que eu passaria os próximos meses proibido de ir ao estádio. O meu time do Palmeiras perdeu o campeonato da rua Dom Manoel da Costa na penúltima rodada. O juiz com certeza deve ter roubado. O Santa Cruz – tragédia – venceu o campeonato pernambucano. O Sport ficou a ver navios,  na Ilha do Retiro.

O menino brasileiro – um entre milhões – aprendeu ali que a vida é feita também de derrotas, fracassos, reprovações. Mas é também feita de lembranças que só aparentemente são desimportantes. Minha paixão pelo escrete deve ter começado ali, na corrida atrás daquele ônibus.

Então, dou um conselho aos meninos brasileiros: corram atrás do ônibus da seleção, se tiverem a chance. Ou do carro de bombeiros no desfile da vitória. Quantas lembranças, quantas paixões pelo escrete não surgirão entre esses meninos que correrão, desembestados, com uma folha de papel em branco nas mãos?

Da matéria dessas lembranças se alimenta a mais bonita, a mais avassaladora, a mais incondicional paixão de um povo por uma instituição nacional: a do brasileiro pela seleção.




Escrito por Luciana Nunes às 19h05
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PÁTRIA MINHA

vie 04 jun 2010 15:57 EDT

Futebol bonito

Ele é moreno, alto e bonito. Fala bem. Pontua corretamente as suas frases. Sorri facilmente. E é patriota.

Kaká rompeu o silêncio e apareceu para falar com jornalistas do mundo inteiro. Ao seu lado, Josué, também escalado para a coletiva ficou (mais) diminuído _tanto foi que a CBF resolveu dividir a coletiva em dois tempos para que o volante reserva não fosse completamente ignorado pelos jornalistas (mais de 300 de todos os continentes).

A sabatina de Kaká começou com um “boa sorte” seguido de risos de Josué, quando ele foi dispensado pelo assessor de imprensa da Seleção. Estava dada a largada para a sessão de perguntas para o mais famoso, assediado e festejado jogador do time de Dunga.

Com a postura de alguém que sabe o que é usar a 10 do Brasil (“apesar de me esquecer disso quando estou em campo”), Kaká não saiu do tom para falar do seu papel de líder, para falar da contestada convocação de Dunga, para defender seus colegas menos festejados (dos que os seus de 2006), para contornar as capciosas perguntas sobre a bola da Copa (da Adidas, pela qual também é patrocinado), para falar da sua condição física. Kaká foi sereno até para comentar a conturbada relação do chefe Dunga com os jornalistas.

Kaká só saiu do tom para ser patriota.

Foi só um jornalista argentino empunhar o microfone para contestar o futebol do time verde-amarelo (“feio”, como frisou), para Kaká subir a voz e, interrompendo a pergunta, defender o futebol do “seu” time como bonito: “Ganhamos de 3 a 1 da Argentina em Rosário. Não acho que foi um futebol feio. Para mim foi espetáculo.”

Espetacular.

Espetacular Kaká.



Escrito por Luciana Nunes às 20h11
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ROMANTISMO

 

 

 

 

 

 

 

Seremos ainda românticos
e entraremos na densa mata,
em busca de flores de prata,
de aéreos, invisíveis cânticos.

Nas pedras, à sombra, sentados,
respiraremos a frescura
dos verdes reinos encantados
das lianas e da fonte pura.

E tão românticos seremos,
de tão magoado romantismo,
que as folhas dos galhos supremos
que se desprenderem do abismo

pousarão na nossa memória
- secas borboletas caídas -
e choraremos sua história,
resumo de todas as vidas.

           (Cecília Meirelles)



Escrito por Luciana Nunes às 20h19
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DEZ COISAS QUE LEVEI ANOS PARA APRENDER

1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa.

2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.

3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.

4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.

5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida.

6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite.

7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria "reuniões".

8. Há uma linha muito tênue entre "hobby" e "doença mental".

9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito.

10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.

(Luís Fernando Veríssimo)




Escrito por Luciana Nunes às 21h59
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FLAGRA



Escrito por Luciana Nunes às 15h27
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ACREDITE SE QUISER

- Oi!

- Oi!

- Tudo bem?

-Tudo.

-Comigo também. Será que chove hoje?

- Nossa! Já tá sem assunto?

- Não. Por que?

- Quando pergunta do tempo é porque tá sem assunto.

- Quem disse isso?

- É o que todo mundo diz.

- Mentira. Isso é lenda.

- Já vem você com essa história de lenda de novo!

- Mas é! Lenda urbana, mas é lenda.

- Ó! Lenda pra mim é lobisomem, mula-sem-cabeça, negrinho do pastoreio...

- Negrinho do pastoreio?! Nunca ouvi falar disso...

- É uma lenda!

- Ah, não existe...

- Claro que não!

- Vi aquele filme ontem.

- Que filme?

- Aquele que você falou.

- E gostou?

- Gostei. Meio mentiroso, mas gostei.

- Só falta dizer que era lenda.

- Um pouco lenda sim.

- Cara, você cismou com isso.

- Eu não! Você que toda hora fala disso.

- Eu falo porque você fala.

- Ih...

- Ih... Já tá enjoando esse papo.

- Vamos falar de outra coisa.

- Acho que eu vou dormir.

- Nossa! Depois eu que sou o “sem assunto”.

- Não é isso. Estou mesmo com sono.

- Tudo bem... Vá dormir!

- Não briga comigo.

- Não tô brigando. Eu nunca brigo com ninguém.

- É mesmo. Acho que nunca te vi de mau humor.

- Nunca mesmo. Se alguém disser que me viu mal humorado, é lenda.

- Ah, não! Lenda de novo?!

- Desculpa. “É que me escapuliu”.

- Adoro Chapolin!

- Isso não é Chapolin, é Chaves.

- Ah, é tudo mesmo a coisa.

- Não é não.

- Vai dizer o que? Que Chapolin também é lenda?

- Não, claro que não.

- Ah tá... O Chaves é que é, né?

- Qual Chaves?

- O presidente da Venezuela!!! Dãããããã!!!!

- Ah, esse é mesmo! Lenda viva. Vivíssima!!!

- Vai falar mal do Lula também?

- Eu não. Eu não falo mal de ninguém.

- Humm... Sei... Isso que é lenda!

- Tá vendo? Você começa.

- Tô brincando.

- Você não ia dormir?

- Sim, eu vou. Você quer que eu vá?

- Não. Você que disse que ia, meia hora atrás...

- Tá bom, já tô indo.

- Amanhã você volta?

- Não sei... O que você acha?

- A lenda diz que você sempre volta. Vai mesmo voltar?

 00:45 – Iara está offline. Sua mensagem será lida quando conectar novamente.

Ilustração: Nano Lima

 



Escrito por Luciana Nunes às 15h24
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LUTO

Fica com Deus, Glauco!



Escrito por Luciana Nunes às 10h45
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DIAS CINZENTOS

Dia cinzento.

Ela vai até a janela e tenta se distrair com o ir e vir dos pedestres lá embaixo. O rádio toca uma música do Clube da Esquina. Ela lembra da viagem que fizeram a São Tomé das Letras. Quem tá cantando? Lô? Beto? Ela não consegue pensar nisso. O rosto dele no emaranhado dos seus pensamentos não permite muitos raciocínios.

Dia cinzento.

Ela afunda no sofá, um livro na mão, o telefone sobre a mesa. Ela não vai conseguir ler com aquele telefone ali, olhando pra ela. Parece implorar para ligar pra ele. É melhor voltar pro quarto.

Dia cinzento.

Ela entra na cozinha e revira os armários. Encontra um pacote de pipoca de micro-ondas. Pura gordura trans. Ele adorava essas tranqueiras. Joga lá pro fundo do armário. Na geladeira deve ter coisa melhor.

Dia cinzento.

Ela sai do quarto tropeçando nos móveis. O interfone não pára de tocar. Será que o mundo tá acabando? O porteiro avisa que ele está subindo. Ela vai até a janela. Põe a mão sobre os olhos para ver melhor. O sol vem surgindo entre os prédios.

 



Escrito por Luciana Nunes às 17h38
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PARABÉNS ÀS SUPER-MULHERES!!!



Escrito por Luciana Nunes às 10h01
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"Miedo que da miedo del miedo que da"

By Fábio Moom e Gabriel Bá [http://www2.uol.com.br/10paezinhos/]



Escrito por Luciana Nunes às 11h24
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SABER VIVER


Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar.
(Cora Coralina)

 



Escrito por Luciana Nunes às 21h24
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INOCÊNCIA

Pé no chão e bola embaixo do braço, Zeca desce o morro correndo pelas vielas até chegar ao barraco do amigo. Encontra a mãe do colega amamentando sentada na soleira da porta de uma construção com a alvenaria à mostra. Logo pergunta:

- Oi, tia! O Dinho tá aí?

- Tá lá dentro.

O menino adentra o casebre chamando pelo amigo. Vai encontrá-lo ainda na cama que divide com outros três irmãos.

- Ô, Dinho! Levanta aí. Bora jogar!

- Já vou...

- Bora, Dinho! Tá todo mundo lá já.

- Tô indo... Muleque chato... Nem deixa a gente acordar direito.

E o menino, dos seus 8 ou 9 anos, vai até o lado de fora do barraco para lavar o rosto no tanque improvisado. Apanha a água que está na bacia colorida com as duas mãos e lava a face com rapidez. Parece querer dizer ao sono que vá logo embora. Passa pela cozinha, toma água do filtro de barro que está sobre a pia e vai em direção ao amigo. Quando chega perto, aproveita-se da distração deste, pega a bola das mãos dele e sai correndo.

- E agora? Vem pegar, mané!

Os meninos descem mais um trecho do morro até chegarem na clareira deixada pela natureza para que a criançada da comunidade tivesse onde brincar. Os times já estão se formando, um dos garotos grita em direção aos dois recém-chegados.

- Pô! Até que enfim! Anda logo, vem os dois pro meu time.

E logo o jogo começa. Não tem juiz, não tem bandeirinha, mas todo mundo sabe de cor as regras do jogo. E aí de quem ousar burlá-las. Em pelada no morro só uma coisa é certa: a fome de bola. São dribles, empurrões, pontapés. Tudo para poder ficar o maior tempo possível com a “gorduchinha” nos pés.

Numa arrancada, o colega de time lança a bola para Dinho. Ele ainda ajeita o corpo para chutar pro gol, quando Zeca entra na sua frente e faz a bola passar por entre as varas de bambu que servem de trave.

O time comemora. Percorrem as laterais do campinho como se estivessem no mais belo e lotado estádio de futebol. Menos Dinho. Ele acompanha a vibração dos amigos em silêncio. Quando Zeca volta para o centro do campo, o amigo vai em direção a ele, enfurecido. Começam uma discussão com muitos empurrões e juras de “nunca mais jogo bola com você”.

Os outros meninos tentam chamar Dinho de volta, mas ele segue, decido, de volta pra casa. Zeca ainda joga por mais alguns minutos, mas sem o amigo ali, parece que tudo perde o colorido. O alegre colorido da infância. E o menino acaba indo para casa também. Quando passa em frente a casa de Dinho, Zeca estica ao máximo o pescoço para tentar enxergar o amigo lá dentro. Dinho está sentado num caixote, assistindo a pequena TV, junto com os irmãos menores. Olha para Zeca com o canto dos olhos e faz de conta que não o viu passar.

No dia seguinte, o sol já tinha se levantado quando Dinho começa a despertar. Preguiçosamente, ele abre os olhos e logo vê uma bola a sua frente. Uma voz bem conhecida o faz acordar definitivamente:

- Ô, Dinho! Levanta aí. Bora jogar!



Escrito por Luciana Nunes às 08h57
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DO PURGATÓRIO AO PARAÍSO

    Primeiro dia de aula. Os alunos chegavam e escolhiam logo os seus lugares. Lugares em que sentariam até o final do ano. Mais um ano. 2º ano do Ensino Médio. Ela foi logo para o fundo da sala e escolheu uma carteira que não chamasse muita atenção. Sentou e começou com suas reflexões.

    - O 2º ano é o purgatório. - ela pensou. Não é o inferno do 1º, quando você tem que se adaptar a uma nova realidade outra vez, mas também não é o paraíso do 3º, quando você vai finalmente deixar tudo isso para trás.

    Pela fresta da persiana, um raio de sol começa a entrar e vai refletir justamente na sua carteira.

    - E aí, iluminada?! - diz um colega do ano passado.

    Ela dá um sorriso amarelo e tem vontade de desaparecer. Esse ano vai ser ainda mais chato do que o anterior. Sua melhor amiga mudou para Brasília. O pai passou em um concurso público desses que ganham milhões por ano para ajudar os ministros a não fazerem nada.

    - Bem que o meu pai podia arrumar um emprego desses...

    O professor de Geometria já está na sala . É a primeira aula das segundas-feiras.

   - Ninguém merece Geometria na segunda-feira. Ninguém merece Geometria dia nenhum!

    Alguém bate na porta. Provavelmente algum recado vindo da secretaria.

    - O segundo ano é aqui? Posso entrar, professor?

    É um retardatário. Aluno novo. Ele procura um lugar para sentar. Olha para a carteira iluminada onde ela está e se encaminha para o fundo do sala. Senta-se ao lado dela.

    - Que nada... Ele só olhou por causa do sol que tá batendo aqui. - ela deduz.

    Enquanto pega o fichário para começar as anotações, olha para ele com o canto dos olhos. Ele está olhando para ela. Ela pensa:

   - É... Acho que o segundo ano pode ser o paraíso também.

    Se arruma na carteira. A aula finalmente vai começar.



Escrito por Luciana Nunes às 10h23
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2010 - 100 anos de Noel Rosa

Uma singela homenagem ao inesquecível Poeta da Vila.

Primeiro filho de seu Manoel e dona Marta de Medeiros Rosa, Noel veio ao mundo em 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, RJ, em parto difícil - para não perderem mãe e filho, os médicos usaram o fórceps para ajudar, o que acabou causando-lhe a lesão no queixo, que o acompanhou por toda a vida.

Franzino, Noel aprendeu a tocar bandolim com sua mãe - era quando se sentia mais importante, lá no Colégio São Bento. Sentava-se para tocar, e todos os meninos e meninas paravam para ouvi-lo extasiados. Com o tempo, adotou o instrumento que seu pai tocava, o violão.

Magro e debilitado desde muito cedo, dona Marta vivia preocupada com o filho, pedindo-lhe que não se demorasse na rua e que voltasse cedo para casa. Sabendo, certa vez, que Noel iria à uma festa em um sábado, escondeu todas as suas roupas. Quando seus amigos chegaram para apanhá-lo, Noel grita, de seu quarto: "Com que roupa?" - no mesmo instante a inspiração para seu primeiro grande sucesso, gravado para o carnaval de 1931, onde vendeu 15000 discos!

Foi para a faculdade de medicina - alegria na família - mas a única coisa que isso lhe rendeu foi o samba "Coração" - ainda assim com erros anatômicos. O Rio perdeu um médico, o Brasil ganhou um dos maiores sambistas de todos os tempos.

Genial, tirava até de brigas motivo de inspiração. Wilson Batista, outro grande sambista da época, havia composto um samba chamado "Lenço no Pescoço", um ode à malandragem, muito comum nos sambas da época. Noel, que nunca perdia a chance de brincar com um bom tema, escreveu em resposta "Rapaz Folgado" (Deixa de arrastar o seu tamanco / Que tamanco nunca foi sandália / Tira do pescoço o lenço branco / Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha) . Wilson, irritado, compôs "O Mocinho da Vila, criticando o compositor e seu bairro. Noel respondeu novamente, com a fantástica "Feitiço da Vila". A briga já era um sucesso, todo mundo acompanhando. Wilson retorna com "Conversa Fiada" (É conversa fiada / Dizerem que os sambas / Na Vila têm feitiço) . Foi a deixa para Noel compor um dos seus mais famosos e cantados sambas, "Palpite Infeliz" . Wilson Batista, ao invés de reconhecer a derrota, fez o triste papel de compor "Frankstein da Vila" , sobre o defeito físico de Noel. Noel não respondeu. Wilson insistiu compondo "Terra de Cego". Noel encerra a polêmica usando a mesma melodia de Wilson nessa última música, compondo "Deixa de Ser Convencido"

Noel era tímido e recatado, tinha vergonha da marca que trazia no rosto, evitava comer em público por causa do defeito e só relaxava bebendo ou compondo. Sem dinheiro, vivia às custas de poucos trocados que recebia de suas composições e do auxílio de sua mãe. Mas tudo que ganhava era gasto com a boemia, com as mulheres e com a bebida. Isso acelerou um processo crônico pulmonar que acabou em tuberculose. Noel morreu no Rio de Janeiro, em 04 de maio de 1937, aos 26 anos, vitimado pela doença.

Carô Murgel - Fonte: www.mpbnet.com.br



Escrito por Luciana Nunes às 14h24
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A MENINA

   Ela passou correndo pelas costas da tia que estava na cozinha escolhendo os ingredientes do bolo para o lanche da tarde. Sendo a tia tão curiosa quanto a menina, foi atrás desta para descobrir a razão de tanta correria. Não lembrava que alguns segundos antes, alguém havia batido palmas no lado de fora do portão.

   Pé ante pé, descobre a menina debruçada na janela que dá para o jardim. Logo pode constatar que seus olhinhos estão atentos à cena que se desenrola no portão.

   À sombra da grande amendoeira, está sua mãe – avó da menina – conversando com uma humilde senhora. Conversam como grandes amigas. No entanto, a menina, muito sagaz, percebe que não se trata apenas de uma conversa.

   A avó conversa com trejeitos de quem conversa com uma amiga de longa data enquanto vai, sutilmente, colocando nas mãos da pobre senhora uma sacola com roupas e alimentos. Depois de alguns minutos de conversa, passa à mão desta, pequena quantia em dinheiro que, certamente, serviria para suprir outras necessidades urgentes. Logo em seguida, põe a mão no ombro da senhora que se encaminha em direção à rua e se despedem.

   Alguns dias depois, novamente a menina atravessa correndo a casa e se debruça na janela. Observa e sai correndo em direção ao baú de brinquedos. Corre para o jardim com algumas bonecas e pelúcias nas mãos.

   A tia vai até a janela e vê sua sobrinha se aproximar do portão onde sua avó conversa com uma jovem cercada de crianças. Como numa brincadeira de marionetes, a menina repete os gestos da avó, enquanto, sutilmente, distribui seus brinquedos entre aquelas crianças desprovidas de quase tudo. A avó abraça a jovem. A menina abraça as crianças. Despedem-se da sofrida família. Outro pequeno milagre aconteceu.

 



Escrito por Luciana Nunes às 12h47
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